O enquadramento teórico pretensamente científico que o Ministério de Educação dá aos professores para leccionarem Cidadania e Desenvolvimento na parte sobre Género e Cidadania no 2º ciclo é um mau exemplo do que deve ser o ensino, e é um mau exemplo a vários níveis:

1 – É escrito por mulheres pelo que a ênfase é todo para realçar o quanto as mulheres são prejudicadas. Não há uma perspectiva masculina. Claro que para quem defende que as perspectivas masculinas e femininas são essencialmente construções sociais e que devem ser iguais, isso não fará diferença. Esquecem-se é que se aceitam as suas ideias relativistas, também aceitam que as próprias perspectivas que defendem foram “construídas” pelo seu contexto social e que este as deturpa.

O enquadramento teórico pretensamente científico que o Ministério de Educação dá aos professores para leccionarem Cidadania e Desenvolvimento na parte sobre Género e Cidadania no 2º ciclo é um mau exemplo do que deve ser o ensino, e é um mau exemplo a vários níveis:

2 – Faz uma suposta apresentação de ideias baseadas em estudos, o que no mundo científico se chama uma revisão de literatura, mas que neste caso são consensuais nos resultados que apresentam. Não há a mínima discussão, não há a apresentação de resultados diferentes e contraditórios, todo o texto afunila no mesmo sentido, numa direcção determinística que é contrária à própria lógica científica.

3 – Adopta uma postura totalmente activista em que não só a perspectiva dos outros é ignorada, pois expõem como sendo os detentores da verdade, como a baseiam em conceitos e valores que não são explicados nem justificados. Esta frase é paradigmática por, à superfície, ser facilmente compreendida, mas que, depois de se pensar um pouco, se percebe que sem qualquer clarificação não tem significado: “Desde que se verifiquem situações de desigualdade à partida, haverá que corrigir essa desvantagem inicial através de ações positivas que, procurando anulá-la, criem condições para uma real igualdade de oportunidades”. O que é uma situação de desigualdade à partida? Qua acções positivas garantem a sua correcção? Como é possível atingir uma utopia como a “real igualdade de oportunidades”? Nada disto é abordado, ficando-se o guião apenas pela citação.

4 – Para além de ignorar a lógica determinista que é usada, mas que é criticada nos outros, condenam o reconhecimento das diferenças entre homem e mulher a partir de uma base biológica: “A … falsa dicotomia, … dividir as características e as actividades em masculino e feminino, … e daí ser necessário desconstruir toda a lógica determinista usada para prescrever a homens e mulheres atributos, competências e interesses decorrentes da diferenciação biológica.” Isto significa defender que se não fosse o contexto social, homens e mulheres teriam os mesmos interesses, atributos e competências, uma vez que a diferenciação biológica é irrelevante. Contudo, não há forma de provar esta afirmação porque o contexto social está sempre presente. Até pode ser diferente consoante a civilização, mas isso não permite concluir, se quisermos ser sérios, que a ausência de contexto traria a igualdade de género. Basta pensar nas características físicas, como a força, etc., ou até nas características psicológicas, que são diferentes entre homens e mulheres e não há prova de que sejam apenas, ou sequer maioritariamente, resultado do contexto social.

5 – Mas é a apresentação da suposta “Teoria” do género que é mais significativa. A definição de género é logo um (mau) exemplo, pois recorre a uma citação de 1985, quando estas ideias começaram a tomar forma: “ … ao falarmos de género nos referimos a um conjunto de componentes, que incluem, para citar apenas algumas, a identidade de género, a orientação sexual, os papéis de género, as características da personalidade, as competências pessoais e os interesses”. Repare-se que todas estas componentes (exceptuando talvez as competências) que permitem abandonar as diferenças biológicas para justificar a igualdade de género, assentam no cérebro humano. Assim como a identidade subjectiva tão “acarinhada” pelos teóricos do género. Mas o cérebro é a parte do ser humano menos conhecida e mais mal compreendida. Ainda hoje não sabemos porque é que o cérebro nos dá esta capacidade de pensar, efectuar operações matemáticas, processar a informação recebida dos sentidos e muito mais. Isto explica muito as limitações da Psicologia. Somos tão ignorantes sobre o cérebro como somos sobre o espaço sideral que está para além da Via Láctea. E se o somos agora, ainda mais o éramos em 1985. Para uma pessoa humilde isto poderia aconselhar um cuidado nas ilações que se fazem sobre o ser humano. Para a “teoria” do género isto não só não é um problema como é mesmo uma vantagem. Por um lado, porque tal como não há base para as afirmações que os defensores da “teoria” do género fazem, também não há base para as rebater. É uma teoria que não é falsificável porque assenta no desconhecimento sobre o cérebro humano. Por outro lado, porque assim há mais liberdade para aplicar a imaginação, mesmo que ela não tenha nada de real.

6 – A descrição do conteúdo chave da “teoria” do género torna mais clara a sua génese marxista: “O cerne da definição reside numa relação completa entre duas proposições: género é um elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças visíveis de sexo e género é uma forma primária de nos referirmos a relações de poder…. O que me proponho é tornar clara e objetiva a forma como devemos analisar a influência do género nas relações sociais e institucionais uma vez que esta análise não é, na maior parte dos casos, feita de forma precisa e sistemática. Uma teoria sobre género é portanto desenvolvida na minha segunda formulação: género é uma forma primária de demonstração das relações de poder”. Este último ponto confirma a visão neo-marxista de toda a teoria do género. Não é apenas pelo facto de ser determinista e de não ser verificável, como o pretensiosismo científico marxista também não é. É também porque se aplica a relações de poder, a uma luta de classes marxista actualizada nas lutas no âmbito das relações sociais e institucionais.