Caro leitor,

Tenho boas e más notícias.
As boas é que o conflito israelo-árabe acabou. As más notícias é que não acabou agora. Já acabou há bastante tempo e ninguém lhe disse.

Como muita gente, o leitor provavelmente estará confuso e ter-se-á questionado: como é que Barém e Emirados assinaram um acordo de paz com Israel depois de tantos anos como inimigos? Ou, afinal, como podem fazer um acordo de paz se nunca estiveram em guerra? Os leitores mais céticos questionarão se este não será apenas um golpe de marketing do astuto presidente Trump em ano de eleições, uma cooperação apenas no papel.

A realidade, porém, como tanta coisa no Médio Oriente, é exatamente o contrário: Israel e vários países árabes já cooperam há bastantes anos, mas só agora decidem assumi-lo e normalizar publicamente as relações. Para o leitor português – tal como para muitos árabes – será um choque: um país demonizado como “o inimigo sionista”, com os judeus apresentados como porcos e macacos na imprensa árabe, ou como colonos assassinos de árabes na imprensa ocidental, de repente passa a um caloroso amigo de vários países árabes. Nos países árabes a mesma imprensa e sistema de educação ditatoriais que doutrinaram os cidadãos para odiarem israelitas tratarão de fazer agora a propaganda contrária; já a nós no ocidente resta tentar perceber o que se passou e navegar o oceano da informação.

Os analistas dir-lhe-ão superficialmente que Israel e os países árabes tem por ameaça comum o Irão, e que isso os aproximou. Isto é verdade: a corrida do Irão ao armamento nuclear criou um pânico comum em Israel e nos países árabes, e uma ameaça de corrida ao armamento em todo o Médio Oriente. O acordo nuclear de Obama que iria travar o Irão não resolveu o assunto, deixando Israel e os países árabes ainda mais alarmados: o acordo retirava as sanções económicas – fortalecendo os ayatollahs – em troca de promessa de não prossecução do programa nuclear mas sem garantias que permitissem a verificação desse não-progresso. Isto forçou a coordenação de várias estratégias de defesa. Sabemos que Israel possui superioridade área e militar no Médio Oriente, mas que teria de sobrevoar a Arábia Saudita para qualquer operação no Irão. Sabemos que Israel possui tecnologias avançadas de defesa antimíssil, e vimos como vários mísseis de fabrico iraniano disparados contra a capital saudita foram interceptados – muito provavelmente por sistemas anti-míssil de fabrico israelita.

Vendo esta cooperação, porque é que árabes e israelitas deveriam estar em guerra de todo?
Até aqui árabes e israelitas estavam formalmente sem relações e em estatuto formal de guerra em nome do conflito israelo-palestiniano: com a Iniciativa de Paz Árabe – proposta em 2002 pela Liga Árabe – os árabes colocariam o seu peso ao lado dos palestinianos, oferecendo a Israel a normalização total de relações e cooperação económica em troca da resolução do conflito, fim da ocupação israelita da Palestina e criação de um estado palestiniano, esperando assim pressionar Israel a fazer cedências importantes para um fim da disputa sem que ninguém perdesse a face. Dado o historial dos países da Liga Árabe de guerras militares e boicotes económicos contra Israel – percebendo a impossibilidade de destruir Israel – esta parecia uma forma airosa de aceitar em definitivo a existência de Israel no Médio Oriente conseguindo, contudo, algumas vitórias.

Talvez sem se aperceberem do que tinham acabado de fazer, os países árabes – interessados em estabelecer relações com Israel e na resolução de um conflito de longa data – colocaram o peso de toda a Liga Árabe nas mãos de um pequeno conjunto de políticos e líderes terroristas palestinianos não-eleitos e sem interesse em acabar com o conflito: apesar de Israel apresentar várias propostas para um estado palestiniano e fazer cedências importantes, seriam os próprios palestinianos a decidir rejeitar a criação de um estado palestiniano.

O leitor provavelmente questionará: quem no seu perfeito juízo luta contra uma ocupação e depois recusa a independência quando lhe oferecem um país numa bandeja? E questiona bem, mas os líderes da Autoridade Palestiniana fizeram uma cuidadosa análise custo-benefício e determinaram que – ao contrário dos países árabes que querem fazer negócios e defesa com Israel – é no seu interesse perpetuar a ocupação e o conflito israelo-palestiniano:

É no interesse de sobrevivência física dos líderes palestinianos perpetuar a ocupação israelita.
Em 2005 Israel saiu unilateralmente de Gaza. Em seguida o Hamas lançou uma guerra civil e assassinou os militantes da Fatah – partido que governa a Autoridade Palestiniana – fuzilando-os contras as paredes e atirando-os do topo de prédios, imagens que chocaram o mundo. A Fatah sabe que, no dia em que Israel desocupar a Cisjordânia, o Hamas fará o mesmo na Cisjordânia. A sua sobrevivência depende literalmente da manutenção da ocupação israelita e, logo, do conflito com Israel (no papel, dado que não existe conflito físico ou outro entre Israel e a Fatah/Autoridade Palestiniana).


É no interesse da sobrevivência política dos líderes palestinianos não assinar a paz com os israelitas.
O líder palestiniano que aceitar um estado palestiniano que não abranja todo Israel (ou seja, toda a Palestina histórica) será visto como um líder que traiu e vendeu o seu povo e a sua causa. Será uma profunda humilhação numa cultura de honra que vê o compromisso e a normalização com “a entidade sionista” como rendição. Basta lembrar Sadat que fez a paz do Egito com Israel e foi assassinado por isso, ou recentemente o professor palestiniano que teve de se exilar fora do país por ter ousado levar estudantes palestinianos a Auschwitz. Isto é materializado nas negociações de paz usando a cláusula do “direito de retorno”: a Israel é exigido não só que desocupe a Cisjordânia como também que permita o retorno a Israel de milhões de árabes descendentes dos refugiados da guerra da independência de 1948, o que automaticamente destruiria a maioria populacional judaica e converteria Israel em mais um estado palestiniano.


É no interesse económico palestiniano perpetuar o estatuto de guerra e de refugiados.
É a narrativa político-mediática dos palestinianos enquanto nação ocupada (e sob bloqueio, no caso de Gaza) que permite aos palestinianos continuarem uma estratégia de extorsão sobre vários países árabes, de angariação permanente de donativos da UE, EUA e outros países, de manutenção de uma verdadeira economia de ONGs, assim como a manutenção de uma agência exclusiva de refugiados na ONU (UNRWA) dotada de muitos mais recursos humanos e fundos per capita do que a agência da ONU para todos os outros refugiados (UNHCR) através de um estatuto de refugiados único que permite a passagem desse estatuto de geração em geração multiplicando para os milhões o número de beneficiários: são nesta altura já 5 milhões apesar de, sob os critérios da UNHCR, apenas devessem ser 50.000.


É no interesse de manutenção do poder palestiniano não terminar o conflito com Israel.
Tanto Gaza como a Cisjordânia apenas realizaram eleições 1 vez – há 15 anos – sendo que Hamas e Fatah se conseguem manter no poder de forma inquestionada e interminável usando o manto do conflito. O fim do conflito acabaria com as desculpas e criaria tremenda pressão para eleições, o que ameaçaria o poder ditatorial atual, colocando em risco desde esquemas de corrupção que enriquecem as lideranças palestinianas a própria segurança dos militantes que torturaram inimigos e dissidentes, caso ficassem fora do poder.

Poderá o leitor questionar: então mas porque não pode Israel desocupar a Cisjordânia de forma unilateral?
A resposta infelizmente é simples: Israel sabe que se o fizer a Cisjordânia poderá cair nas mãos do Hamas ou de outra organização terrorista pior, podendo transformar-se (como Gaza desde 2007) numa nova base terrorista para o de disparo de milhares de mísseis e outros ataques diretamente sobre o coração de Israel, a apenas 10 minutos de carro de Tel Aviv e na fronteira imediata da capital Jerusalém.

É perante este quadro de permanente rejecionismo e parasitismo palestiniano versus cooperação de segurança e económica com Israel que os países árabes se deparam. Passados quase 20 anos da Iniciativa de Paz Árabe, os líderes árabes decidiram avançar para a formalização da paz retirando o poder de veto das relações árabes-israelitas aos palestinianos, para assim poderem aprofundar relações de defesa e de negócios com o antigo inimigo.

O velho conflito israelo-árabe já terminou. Existe apenas no papel.
O próprio conflito israelo-palestiniano, em larga medida, também.

O único conflito que resta é, na realidade, nos próprios países árabes – incluindo nos vários estados palestinianos – que continuam a oscilar entre a segurança e o terrorismo, entre as ditaduras mais religiosas ou mais seculares, entre culturas de moderação e de extremismo, nas lutas de poder entre clãs e grupos rivais. Tudo o resto é apenas um sintoma disso.